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Data: 17 de Julho de 2013 | Lida 3768 vezes. | Aumentar Fonte | Diminuir fonte | Imprimir

Móveis feitos com madeira de demolição põem em risco a conservação do patrimônio histórico Adriano Belisário

Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A máxima de Lavoisier parece inspirar os marceneiros que fabricam móveis com madeiras de demolição. Postos abaixo antigos casarios, algumas de suas partes são reaproveitadas para a construção de mobiliários de luxo. Porém, ao mesmo tempo em que preserva o meio ambiente, esta prática também põe em risco a conservação de imóveis históricos, especialmente no Sudeste do país.  

O administrador de uma loja do ramo diz que o consumidor desses produtos "não é o cara que vai comprar um armário nas Casas Bahia". Segundo o Ministério Público, traficantes podem usar esses objetos para lavagem de dinheiro.

O administrador de uma loja do ramo diz que o consumidor desses produtos "não é o cara que vai comprar um armário nas Casas Bahia". Segundo o Ministério Público, traficantes podem usar esses objetos para lavagem de dinheiro.“Quase não se pensa mais em restauração. Os proprietários querem apenas repartir a casa e vender seus pedaços. Eles se sentem seduzidos pelas cifras propostas por coisas que deveriam ter mais valor se estivessem no seu contexto original”, diz a arquiteta Francyla Bousquet. O bom preço por aquilo que alguns veriam como lixo reflete a alta qualidade dos materiais usados na construção destes imóveis dos séculos passados. São madeiras nobres, antes comuns, mas hoje proibidas de corte ou até mesmo extintas, como é o caso do pinho-de-riga.



Segundo Marco Roberto Ribeiro de Almeida, administrador de uma loja do ramo no Rio de Janeiro, o trabalho de limpeza das tábuas e o singular aspecto rústico dos móveis também contribuem para tornar o metro cúbico de uma madeira desta até dez vezes mais caro do que a convencional, dependendo do tipo de material usado. “Meus clientes são pessoas de classe média ou alta. Todos os móveis são exclusivos, feitos de acordo com a necessidade. Não é o cara que vai comprar um armário nas Casas Bahia. Eles querem coisas de boa qualidade e estão dispostos a pagar um pouco mais caro. É gente com bom gosto e bom dinheiro”, relata o comerciante.

Para Renato César José de Souza, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), esta prática começou por volta dos anos 1970, com uma tentativa urbana de reproduzir ambientes rurais. E a grande quantidade de edificações dos tempos coloniais fez de Minas Gerais um dos principais palcos das demolições que dão a matéria-prima para esse estilo. Mas os órgãos oficiais de preservação do patrimônio do estado já ligaram o sinal vermelho e pretendem manter de pé os imóveis históricos da região.

“Toda demolição precisa ser autorizada pelo município, independentemente de o bem ter valor cultural ou não. Porém, na maioria dos casos, as demolições são ilícitas por não possuírem o alvará. Por isso, temos conseguido evitá-las judicialmente e pleitear a conservação dos imóveis”, afirma Marcos Paulo de Souza Miranda, do Ministério Público de Minas Gerais. A pena para os infratores pode variar de uma multa de R$10 mil a R$ 500 mil a até três anos de prisão, caso o bem seja tombado.

Marcos diz ainda que a maior dificuldade neste trabalho é o pouco controle sobre a venda e a compra de materiais de demolição. Também fazem falta uma lei específica sobre o tema e registros capazes de identificar os compradores, como a emissão de notas fiscais. Tudo isso faz deste comércio um “terreno propício para a sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e receptação e destruição clandestina dos bens culturais brasileiros”, segundo ele. “Traficantes de drogas costumam receber grande quantidade de dinheiro em espécie, sem poderem comprovar a origem. Por isso, podem vir a comprar objetos produzidos com madeira de demolição, que têm valor variável, como investimento ou mesmo para depois revendê-los auferindo grandes lucros, dando aparência de legalidade à transação. Os consumidores devem pedir a comprovação da procedência lícita, exigindo nota fiscal e declaração em tal sentido por parte da loja”, completa.

Na hora de os proprietários decidirem entre a restauração e a demolição, a falta de laços afetivos com a casa aparece como um dos fatores decisivos. “O grande vilão da conservação dos prédios rurais é o famoso espólio. Mortos os proprietários que moravam naquele lugar, os herdeiros chegam para disputar não só a terra, mas até o último prego”, afirma Renato. Porém, existem aspectos menos subjetivos que também pesam nesta escolha. “Nós conseguimos facilmente financiamento para comprar bens, mas não existe nenhum incentivo para este tipo específico de reforma que é a restauração de um patrimônio histórico particular. Uma antiga fazenda de café que foi importante economicamente no passado não precisa ser tombada para que possamos reconhecer seu valor”, critica Francyla.

Já Paulo Knauss, historiador da Universidade Federal Fluminense, explica que imóveis dentro de áreas de proteção ambiental (APA) podem contar com auxílio técnico e isenção fiscal para restauração de patrimônios históricos. “É o tipo de iniciativa que deveria ser multiplicada. Mesmo porque há falta de mão de obra qualificada no mercado para este tipo de trabalho. Preservar o patrimônio é uma operação complexa e exige tanto profissionais bem qualificados como outros de formação mais básica”, diz.

Porém, restauração nem sempre é igual a prejuízos financeiros. O turismo rural de Minas Gerais é um exemplo disso, como lembra Renato César. “Todo o estado foi muito afetado. A região metropolitana era repleta de fazendas, e sobraram apenas duas ou três. Todo o resto foi demolido. Mas no interior existe um circuito de fazendas que investiram na preservação de seu cenário, possuem pousadas, fazem atividades culturais e outras coisas, garantindo sempre uma lotação muito boa”. Prova de que, mais do que as madeiras, é preciso reciclar as ideias sobre preservação do patrimônio histórico.

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